Sabem aquela letra da Calcanhotto?:Eu não gosto do bom gostoEu não gosto de bom sensoEu não gosto de bons modosNão gostoEu aguento até rigoresEu não tenho pena dos traídosEu hospedo infratores e banidosEu respeito conveniênciasEu não ligo pra conchavosEu suporto aparênciasEu não gosto de maus tratosMas o que eu não gosto é do bom gostoEu não gosto de bom sensoEu não gosto de bons modosNão gostoEu aguento até os modernosE seus segundos cadernosEu aguento até os caretasE suas verdades perfeitasO que eu não gosto é do bom gostoEu não gosto de bom sensoEu não gosto de bons modosNão gostoEu aguento até os estetasEu não julgo a competênciaEu não ligo para etiquetaEu aplaudo rebeldiasEu respeito tiraniasEu compreendo piedadesEu não condeno mentirasEu não condeno vaidadesO que eu não gosto é do bom gostoEu não gosto do bom sensoEu não gosto de bons modosNão gostoEu gosto dos que têm fomeDos que morrem de vontadeDos que secam de desejoDos que ardem…
É um género senha de entrada e saída, temos de saber entrar e saber sair. Deixo a chave. Fiquem com ela. Podem entrar e sair. Basta rodar a fechadura. O Manuel extinguiu-se a si mesmo, foi-se fechando, e, agora nem que viesse o bom do Rubem, ah e tal, Chonas, o meu Manual,... Pois!, diria, vai oprimir outro! Basta-me a puta da realidade para me frustrar!, foda-se!
«Pouco importa o tempo ou o lugar (...). Eu estou convosco e sei como é a vida.» Walt Whitman
e
acabamos
como começamos:
" Eu me preparei para enfrentar a adversidade. Estou acabando de escrever o Manual dos Frustados, Fodidos e Oprimidos. Nele descrevo, minuciosa e sistematicamente, os métodos mais sujos e destruidores para se ir à forra de qualquer inimigo, seja ele quem for, forças armadas, companhias de serviços públicos, companhias de cartões de crédito, bancos, a polícia, o proprietário senhorio, a loja comercial, qualquer pessoa ou instituição que tem força e sacaneia os outros. Ensino a técnica adequada para devassar, desmoralizar, arruinar, aniquilar, exterminar indivíduos e organizações odiosas, mostro como atacar saindo das sombras, como atormentar e destruir sem misericordia. Pela sua cara vejo que não gosta de mim. (Esse livro, na verdade, nunca foi escrito. Nariz de Ferro gostava de jactar-se não apenas das coisas que havia feito, mas também das que ainda ia fazer.) "
Rubem Fonseca, A grande arte, 1983