Ela é como o pano-cru, como outra Primavera... A vida é feita de pequenos nadas. O primeiro dia, não é simples, é doloroso e os outros também. Depois passam, devagar mas vão passando, e passam… Da brasa é feita cinza e da cinza renascemos… Põe-te em guarda… Disseram-lhe um dia…
Estavam os dois a pensar naquilo que passou e acabaram separados, embrenhados em pensamentos saltitantes, evocações de um passado lá longe, que não desejaram mas amaram. E outra Primavera chegou. Mais uma. Começavam a suceder-se as estações, indiferenciadas…
Todos os dias são diferentes, com pequenas comédias dramáticas, filmes, cenas da vida, pois que ela passa… Só nós aqui somos apenas nós, sempre-iguais, sempre-assim, queremos o amanhã com os olhos no momento, apagamos o passado com o sentido no futuro. A vida é feita de nadas. Pequenos passos tímidos.
Segunda-feira trabalhei de olhos fechados.
Há pessoas para tudo! Umas gostam das segundas, outras não, umas-outras das sextas, outras não ligam, há quem deteste o domingo e quem adore o sábado.
Ele vinte anos e ela dezoito.
A porta pode ser muito pesada, excessiva, daquelas que não se transpõem. Nem no quarto. Nem com sexo. Há barreiras limitantes-quase-gritantes. O tempo é só o tempo de acordar depois de dormir, aquele que se segue após o outro. Outra Primavera.
Nem todas as pessoas crescem e aprendendo sabem o que fazer, o que evitar… Há quem aprenda com os erros… Há quem persista em repeti-los.
A Ana olhou o João. Viu nos seus olhos, a fugir, a evasão que não conseguiu esconder. Ficaram assim, em negação, da evidência do brutal. Aquele morno calado, não-consentido. Como o pano-cru. Ainda por acabar. O Sérgio dizia estar entre o que já fez e o que irá fazer. Pano-cru.
Ela disse que iria embora. Definitivamente. “Parto sem dor”. João achou que sim. Estava cansado. Do seu corpo. Da sua voz. Do seu cheiro. Dos seus amigos. Do silêncio inquebrável. Andavam naquele-não-apetece eterno, naquela solidão não partilhada que ambos desejavam tal qual, calados. Ela teve a coragem de desfazer aquele nó, de pele, de sangue, cansada…
Há quem se encontre desencontrando-se e quem se veja sem olhar; quem viva para lá do pensamento, na sensação. Há quem se cale sem nada para dizer e fica-se na dúvida de haver algo a ouvir. Há quem fale sem conseguir dizer o que quer. Há quem nunca fale aquilo que pensa.
Andas aí a partir corações como quem parte um baralho de cartas…
Um dia reencontraram-se. Os dois a gritarem de sede. Parecia que vinha o fogo de novo. As cinzas varridas. Esquecidas. Outra Primavera. Renasceram ao mesmo tempo!
( Dedicado ao Sérgio Godinho, que com a sua música e as suas letras povou o meu passado de sonhos… “E há quem durma tão cansado nem um beijo os estremeça”)